Errar pode ser bom! Se o erro for rápido, pequeno e barato.

Imagine as cenas enquanto lê esse texto.

Numa pequena cidade da Itália, um pequeno restaurante era famoso pelo seu Macarrão a Carbonara. Turistas do mundo todo visitavam esta cidade para almoçar no restaurante do chef Gino. Gino era da terceira geração de chefs e aprendeu a fazer o molho a la carbonara com sua avó e aperfeiçoou o ritual da receita com seu pai, e repete exatamente a mesma receita a décadas.

A receita era muito simples. Os ingredientes eram macarrão cozido, 5 ovos, bastante bacon e queijo parmesão ralado. Os fornecedores eram produtores locais bastantes conhecidos. A receita estava dominada e não tinha erro. Sempre ficava muito boa. Como diziam os clientes: — este prato é de comer rezando!

Mas…

Toda história tem um “mas”.

Um certo dia o governo proibiu todos de saírem de casa. Os fornecedores não entregaram os ingredientes que Gino estava acostumado. Os turistas não visitavam mais a cidade. No entanto, o governo encomendou duzentas refeições para seus funcionários que estavam trabalhando na cidade. De uma hora para outra Gino teve que comprar os ovos, bacon e queijo que estavam disponíveis, de fornecedores e procedência que ele não conhecia, para atender esse importante pedido do governo. E assim o fez.

Mas para Gino estava tudo bem. Porque ovo é ovo, bacon é bacon, e queijo é queijo. E isso era tudo que ele precisava para continuar a fazer seu famoso macarrão a la carbonara. Seguiu a receita como sempre fez, igualzinho aprendeu com sua avó e seu pai. Seguiu o ritual da receita para entregar as duzentas refeições daquele dia.

Cozinhou o macarrão, bateu levemente os ovos com o queijo ralado até formar uma mistura cremosa, fritou o bacon em quadradinhos pequenos e quando estavam bem fritinhos, juntou o creme de ovo e queijo com o bacon ainda fritando na sua gordura bem quente. Este era o segredo da receita! Era o óleo quente do bacon que cozinhava o ovo e derretia o queijo no ponto certo para formar o apreciado molho a la carbonara que dava fama ao seu restaurante.

Você deve estar até sentindo o cheirinho de bacon frito, não está?

Gino fez tudo certo. Fez como sempre fez. Seguiu exatamente o ritual da receita que sempre deu certo, a décadas, mas, desta vez algo deu muito errado.

O que deu errado? Qual foi o erro do Gino?

O prato ficou extremamente salgado. Não dava para comer.

O erro do Gino foi confiar no que sempre deu certo, e fazer a mesma coisa que sempre fez, justamente porque sempre deu certo.

O que Gino não percebeu foi que os ingredientes mudaram, não os ingredientes em si, mas a qualidade deles. Talvez os ovos que Gino conseguiu comprar não eram exatamente iguais aos ovos do seu fornecedor habitual. O bacon era muito mais salgado e para piorar, o queijo também estava muito salgado.

Gino que confiava na sua receita tão dominada, não se atentou para esses detalhes. E são justamente esse detalhes que podem arruinar seu restaurante, sua imagem e reputação.

E o que podemos aprender com a história do Gino?

Em tempos de incerteza, todos somos novatos. Mesmo os mais experientes!

Em tempos de incertezas, não dá para continuar a fazer o que sempre fizemos. É muito arriscado.

Em tempos de incerteza temos que aprender a errar rápido, pequeno e barato.

Gino estava na sua zona de conforto. Foi arrogante e ingênuo ao confiar cegamente na sua receita que sempre deu certo. E este é o mesmo erro que muitos donos de negócios estão cometendo neste exato momento de pandemia por Coronavirus.

E se Gino tivesse experimentado o bacon e o queijo antes de fazer a receita para duzentas pessoas? Talvez ele teria tempo de corrigir o sal, ou arrumar outra solução, como mudar a receita, incluir outros ingredientes ou usar menos bacon e queijo. O prejuízo financeiro seria bem menor, ao invés de gastar todos os ingredientes poderia experimentar combinações e proporções novas. Mas principalmente não correria o risco de manchar sua imagem e reputação.

E mesmo se Gino não tivesse experimentado cada ingrediente separadamente, mas tivesse feito apenas um ou dois pratos seguindo sua receita original. Certamente Gino perceberia que havia algo errado e teria perdido tempo, ovos, bacon e queijo para apenas dois pratos, um por cento do total. Estaria errando rápido, pequeno e barato.

Errar rápido, pequeno e barato, e aprender a cada ciclo desses tem nome. É chamado de pensamento LEAN ou pensamento enxuto. O LEAN tem como objetivos:

  • Melhorar processos e modelos continuamente e incrementalmente,
  • Executar processos de forma mais eficiente possível,
  • Evitar desperdício a qualquer custo,
  • Solucionar problemas de forma sistemática.

LEAN é uma maneira de pensar, é um comportamento que extrapola ferramentas e metodologias. Ter um comportamento LEAN é uma vantagem competitiva quase que injusta em qualquer cenário, mas em cenário de crise ou incertezas, adotar o LEAN é crucial à sobrevivência, manutenção e até mesmo ao crescimento de qualquer negócio.

A velha cartilha da gestão de negócios que dizia que você deveria fazer um plano de negócios para cinco anos e ser fiel a ele não serve mais. Em cenário de incerteza, as regras mudam a todo momento. O que sempre funcionou, talvez não funcionará mais.

O gestor terá que ter a humildade de aceitar que não sabe mais o que fazer, que já não tem mais todas as respostas. Que a experiência pode ter se tornado irrelevante neste momento de incerteza.

O gestor terá que pedir ajuda ao seu time abrindo mão do controle e centralização. Terá que permitir e estimular um ambiente descentralizado e com mais autonomia. Neste momento, a colaboração e a transparência serão os ingredientes que manterão seu time e seu negócio relevante. Quem sabe vocês, todos juntos, conseguirão tornar sua empresa um negócio antifrágil, que segundo Nassim Taleb, são empresas que se beneficiam num cenário de caos, e se tornam melhores, mais ágeis, mais inovadoras e lucrativas após, ou mesmo durante, as crises.

Eu realmente recomendo que você pare. Permita-se fazer um prato de macarrão a la carbonara e enquanto isso, pense em conhecer melhor o pensamento LEAN, métodos ágeis como SCRUM e a teoria da antifragilidade de Taleb.

Ahh… mas experimente cada ingrediente antes de usá-los.

Permita-se experimentar coisas novas. Aprenda com cada experimento, corrija-o e experimente de novo. Desta forma o próximo produto, serviço, processo — ou mesmo prato de macarrão a la carbonara — sempre será melhor que o anterior, e pior que o próximo.

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Paulo Tomazinho é doutor em educação, especialista em aprendizagem e tecnologia educacionais. Mentor e Palestrante nas áreas de Inovação, Transformação Digital e Métodos Ágeis.

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